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Qualificações pastorais

Publicado por Thiago André Monteiro em 21/Maio/2009

Há tempos não publico nenhum artigo meu aqui no site. Com o avanço do curso de teologia tenho investido muito mais tempo estudando e menos do que eu gostaria escrevendo aqui. Mas isso tem também o seu lado bom — tenho escrito alguns trabalhos bastante interessantes!

Tive, então, a óbvia idéia de, aos poucos, publicá-los aqui. A maioria tem uma linguagem um pouco mais acadêmica se comparada aos textos que venho publicando, mas sei que conto com um público fiel que tem crescido (até mesmo academicamente) comigo e que vai adaptar-se a esse “novo estilo” com alegria!

Não esqueça de deixar o seu comentário ao final do texto. Boa leitura!

* * *

INTRODUÇÃO

O que se pode pensar dos pastores nos dias de hoje?

Lanço o desafio de sair às ruas e perguntar a esmo: o que você pensa dos pastores evangélicos no Brasil? Imagino qual seria a resposta mais comum encontrada e penso: que lástima!

Lamento porque ficaria evidente que a maioria das pessoas não tem a menor condição de nem ao menos responder a esta simples pergunta. Poderíamos, então, nos concentrar naqueles que sabem quem é Cristo — e ainda não estou restringindo a pergunta apenas aos que são considerados cristãos – O que será que eles responderiam? Provavelmente fariam algumas (ou várias) críticas, dizendo que são mercenários, aproveitadores, enganadores, egoístas que só pensam em encher os bolsos à custa de ilusões daqueles que são mais sensíveis (para não dizer tolos).

Finalmente podemos nos concentrar àqueles que se intitulam cristãos. O que será que obteríamos como resposta? Pense um pouco… O que nossos irmãos pensam acerca de seus pastores? Imagino que encontraríamos uma gama de respostas que passariam por todas as possibilidades entre a mais pura admiração e a mais revoltosa repulsa. Isso porque, infelizmente, quando consideramos o universo de pastores existente, não encontramos um padrão de qualidade. Parece que cada um constrói o seu ministério (se é que todos o chamam assim) da maneira que bem entende. A mim resta meditar a respeito e novamente e concluir: que lástima!

Mas será que não há jeito? Será que não existe um padrão a ser seguido? Não é possível que Deus tenha vindo ao mundo, ensinado sobre o seu amor, morrido na cruz, deixado a missão de dar seqüência ao árduo trabalho e não tenha deixado um manual detalhado.

Claro que não é possível! Afinal, o principal interessado é o próprio Deus. Foi ele quem deu a missão, é ele quem vai cobrar os resultados e, para que ele possa cobrá-los, precisa antes dizer como o trabalho deve ser feito. E ele disse! Na verdade deixou uns escritos bem específicos que, só para variar um pouco, o homem decidiu ignorar, ou alterar, ou cumprir somente em parte, ou dar uma atualizada pessoal, uma nova roupagem, acrescentar um detalhe aqui, outro ali; afinal, os tempos são outros, a cultura é outra, o mundo evoluiu. Não faz o menor sentido aplicar instruções tão antigas num mundo tão evoluído. Pobre Deus. É óbvio que ele não sabia onde iríamos chegar. Será que ele não vai mandar um manual atualizado?

Para não correr o risco de minha ironia ser interpretada como verdade – afinal, os dias de hoje trazem consigo tanto absurdo que se faz necessário explicar muito bem o que se deseja defender mesmo que soe um tanto redundante – respondo minha própria questão retórica com um sonoro NÃO!

Não; Deus não muda! Ele é eterno e conhece melhor do que ninguém o mundo. Ele já sabia aonde chegaríamos. Ele já sabe que caminho tomaremos. Para ele não há passado, presente ou futuro. Como ele é perfeito, sua revelação para o homem também o é; e isso significa que todas as instruções ainda são válidas e sempre serão.

Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão. (Mateus 24.35)

Só resta então ao homem estudar o manual — o único à disposição — e descobrir o que Deus pensa a respeito dos pastores. Esta é a pergunta que deveria ser feita. Como Deus quer que seus pastores trabalhem? Quem pode ser um pastor de acordo com as especificações divinas? Este é o objetivo deste trabalho; voltar às Escrituras humildemente (e limitadamente) para tentar descobrir o que Deus espera de nós, servos contratados por um curto período para conduzir o seu rebanho nessa terra inóspita.

ONDE ENCONTRAR INSTRUÇÕES

Uma vez que entendido que é Deus quem deve ditar as regras resta-nos definir onde procurar. Obviamente qualquer cristão tomaria a palavra agora e responderia: na Bíblia, é claro! Muito bem. Então, como qualquer cristão que se preza já sabe, por que não deixar que Deus fale através da Bíblia? Lanço agora o desafio: despojemo-nos de todos os nossos pressupostos, preconceitos e filosofias humanas, estudemos aquilo que Deus nos propõe sobre o assunto e deixemos que ele nos diga qual é o padrão. O objetivo final será apenas seguir este padrão; e não ficar racionalizando, justificando ou questionando se o padrão encontrado é ou não o melhor.

Se vasculharmos a Bíblia toda em busca de orientações para o pastorado, encontraremos informações espalhadas em vários livros. Até mesmo ao analisar alguns livros proféticos do Antigo Testamento poderíamos tirar aplicações quase imediatas; porém, no Novo Testamento encontramos as famosas epístolas pastorais — 1 e 2 Timóteo e Tito — em que Paulo escreve a seus discípulos Timóteo e Tito orientando-os como construir seus próprios ministérios. É nelas, portanto, que iremos focar para buscar nossas respostas.

Infelizmente ainda sou um seminarista que não cursou grego, portanto serei um refém dos tradutores de variadas versões bíblicas e de análises dos comentaristas que realmente sabem (espero) analisar as cartas de Paulo em sua língua original. Que Deus trabalhe através de mim e não permita que eu exponha aqui conclusões inverídicas. Mãos à obra!

O CHAMADO PASTORAL

Inicialmente é importante ressaltar que para ser um verdadeiro pastor você deve ser chamado por Deus para exercer tal tarefa. Isso significa que não é a pessoa quem decide ser pastor, mas é Deus quem a escolhe e a convence. Pessoalmente traço um grande paralelo com a própria questão da salvação. Ninguém escolhe por si mesmo seguir a Deus se antes o próprio Deus não o convencer. Trata-se do princípio da eleição, que não faz parte deste estudo e, portanto, não gastarei mais do que algumas linhas desenhando tal paralelo.

É bem claro que, uma vez convencido pelo Espírito Santo, o indivíduo busca a Deus; afinal, a fé, como diz a Bíblia, tem sua função no processo de salvação. Porém, se Deus não agir, ninguém conseguirá perceber que precisa de Deus, e, portanto, não sentirá nenhuma necessidade de buscá-lo. Isto nada mais é do que o pecado do próprio homem o cegando.

O chamado pastoral é a mesma coisa, só que o universo de possibilidades passa a ser os cristãos. Deus agora escolhe dentre os seus seguidores aqueles que serão comissionados a cuidar de suas outras ovelhas.

A história de Paulo é um excelente exemplo. Inicialmente ele era um dos mais ferrenhos perseguidores dos cristãos. Mal sabia ele que era um dos escolhidos para a salvação. No caminho para Damasco Deus encontrou-se com ele. Pobre homem. Não teve a menor chance contra Deus. Ele fora eleito e, como a graça é irresistível, foi salvo e ponto final. O mais legal é que, como Deus não faz nada forçado, ao homem parece que é exatamente aquilo que ele sempre buscou. Sempre digo que, apesar da eleição, ninguém vai para o céu contrariado — Droga Deus! Você me salvou e eu não queria isso!

Agora Paulo está escrevendo uma carta para o seu discípulo Timóteo. E vejam só o que ele escreve:

Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério (1 Timóteo 1.12)

Paulo tem noção exata de que ele fora chamado por Deus para o ministério. E não é que, apesar disto, ele também diz ao próprio Timóteo que “se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja” (1Tm 3.1)? Ora, então Deus é quem chama para a tarefa e o escolhido aparentemente tem em si uma vontade enorme de seguir este mesmo ministério. Isso não te lembra alguma coisa? O interessante é que, assim como relutei em aceitar o conceito de eleição, também relutei em aceitar o conceito de chamado pastoral; e, no fim das contas, trata-se da mesma coisa em contextos diferentes.

Um fato que me intrigou é que todos os testemunhos que encontrei de pastores, em livros ou em conversas, eram muito similares. Antes de ser efetivamente um pastor as pessoas não querem isso para si. Elas tentam fugir ou evitar a todo custo; mas sem êxito. É verdade que, conforme o tempo passa, as pessoas acabam aceitando a tarefa de bom grado, pois entendem que a função é especial e, como são cristãos sérios, buscam cumprir a vontade de Deus e morrem de medo de estarem desobedecendo ou fugindo de seus planos.

Essa repulsa inicial se dá porque as pessoas que realmente têm tal chamado encaram o serviço de pastor como um enorme desafio e, normalmente, pensam que a tarefa estará muito além daquilo que eles poderão agüentar. No fim das contas elas decidem obedecer a Deus e entregar os problemas nas mãos dele. O que realmente importa é fazer a vontade divina. Já aqueles que vislumbram o status, o poder, ou seja lá mais o que os atrai, não estão muito interessados em cumprir a vontade de Deus. Estes forçam uma situação e, às vezes, acabam convencendo os outros — e até a si próprios — de que ele foi mesmo chamado. Quando isso acontece temos alguém que não é um pastor aos olhos de Deus cuidando de um rebanho. É praticamente certo de que tanto o pastor quanto o rebanho sofrerão até que todo mundo se perca.

Portanto, uma vez que somos verdadeiramente chamados, temos em nós uma vontade crescente de buscar o episcopado. Mas como distinguir entre um chamado verdadeiro de um “acho que fui chamado”?

Inicialmente temos que analisar nossas vidas. Será que somos aprovados em todas as qualificações exigidas (veremos quais são elas mais adiante)? Se não formos aprovados em uma que seja é certo de que (ainda) não fomos chamados; afinal, se quem chama é Deus e quem definiu os critérios também é Deus, não faz sentido algum ele chamar alguém que não cumpre os seus próprios requisitos.

Outra forma de validar o chamado (para si próprio, que é o que interessa) é receber a confirmação de pessoas próximas. É importante, porém, que essas pessoas tenham um relacionamento sério com Deus e que demonstrem isso com o respeito conquistado entre os cristãos.

Finalmente, para saber se o chamado é verdadeiro, devemos avaliar nosso relacionamento pessoal com Deus. Estamos com a vida em ordem? Sempre buscamos fazer a vontade de Deus a ponto de aceitar qualquer tipo de prejuízo pessoal? Temos que crer que, se alguém é fiel a Deus e tem com ele um relacionamento saudável, de forma alguma Deus permitirá que tal pessoa se engane a ponto de entrar no pastorado sem ser alguém escolhido para tal. Deus é fiel àqueles que o seguem.

Para concluir esta seção vale lembrar um texto que também comprova que o chamado ao ministério pastoral parte de Deus, e não do homem.

Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue. (Atos 20.28)

Uma última observação que faço aqui, talvez um tanto fora de contexto, é notar que a trindade — Espírito Santo como aquele que constitui os bispos, Deus como o dono da igreja e o sangue de Jesus Cristo como a moeda que a comprou — está presente neste singelo versículo. Será em vão que Lucas mencionou as três pessoas da trindade envolvidas neste processo?

VIDA DE ORAÇÃO

Antes de entrar no assunto das qualificações pastorais acredito ser importante, assim como Paulo o fez, ressaltar um ponto que costumeiramente cai no esquecimento: a vida de oração.

Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. Isto é bom diante de Deus, nosso Salvador (1 Timóteo 2.1-3a)

Certa vez, conversando com um pastor amigo meu, descobri que um dos maiores problemas de sua vida espiritual era a falta de oração. Pessoalmente fiquei chocado, pois é tão óbvio que esta é uma das principais formas de nos relacionarmos com Deus, que achei um enorme contra-senso um homem que eu tanto admirava, que aparentava ser alguém tão próximo a Deus e tão mais “espiritual” que eu, ter um problema como este.

Passei alguns dias meditando a respeito e orando por sua vida. Inicialmente não cheguei à conclusão alguma, nem tampouco voltei a tratar este assunto com ele. Tempos depois comecei a ler alguns livros com o testemunho de vida de alguns pastores ditos bem-sucedidos. Qual não foi a minha surpresa em descobrir que eles lutavam contra o mesmo problema de meu amigo. Foi então que as coisas começaram a fazer sentido na minha cabeça. Quando entramos a fundo no ministério pastoral passamos a viver corriqueiramente situações “espirituais”. Estamos sempre ajudando os outros, aconselhando, preparando sermões, organizando eventos da igreja, estudando as Escrituras e até mesmo orando com pessoas acerca de seus problemas. O fato é que esta vida “espiritual” se torna tão corriqueira para nós que deixamos o nosso relacionamento pessoal com Deus meio de lado. Às vezes resolvemos tantas coisas em nome de Deus que esquecemos por alguns minutos que não somos nós quem realmente resolvemos. Ouso dizer que por vezes até deixamos de acreditar no poder da oração.

Este é um fato curioso. Lembro-me adolescente, quando orava muito e lia praticamente nada da Bíblia. Para mim, idiota que era, isto bastava como um relacionamento. Eu falo e Deus só escuta. Anos depois, quando Deus resolveu dar-me uma sacudida, resolvi levar mais a sério esse tal relacionamento. Foi então que descobri a Palavra de Deus. Era tudo tão magnífico que pensava — Como pude ser tão tolo e perder tanto tempo sem estudar este livro maravilhoso? — O tempo foi passando, fui me aprofundando em conhecimento, melhorando o meu jeito de viver, corrigindo atitudes aqui e ali. Até que me vi na situação inversa: eu lia muito e orava pouco! Agora o relacionamento estava invertido: Deus falava muito e eu quase nada! Será que isto tem alguma diferença com o primeiro estilo de relacionamento? Será que eu não posso novamente chamar-me de idiota?

Enfim, analisando minha própria experiência, a de meu amigo e a dos pastores que decidiram escrever a respeito, conclui que isto é um problema comum. Nós precisamos das orações tanto quanto do aprendizado que a Bíblia nos proporciona. Que dirá um pastor, que deve ser o exemplo para o rebanho? Talvez Paulo estivesse alertando Timóteo exatamente disto: Cuidado! Quando menos você esperar terá deixado as orações particulares de lado. Portanto vigie e pratique o exercício da oração. Isto é bom diante de Deus, nosso Salvador.

QUALIFICAÇÕES PASTORAIS

Encontramos as famosas qualificações pastorais no terceiro capítulo da primeira carta de Paulo a Timóteo e no primeiro capítulo de sua carta a Tito. Abaixo transcreverei os dois textos na versão Almeida Revista e Atualizada (RA). Mais adiante analisaremos detalhadamente cada qualificação, quando então trarei à tona outras traduções — Nova Versão Internacional (NVI), Almeida Revista e Corrigida (RC), Bíblia de Jerusalém (BJ), Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) e A Bíblia Viva (BV) — que nos auxiliarão no correto entendimento de cada uma das qualificações.

Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja. É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, porém cordato, inimigo de contendas, não avarento; e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?); não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo. Pelo contrário, é necessário que ele tenha um bom testemunho dos de fora, a fim de não cair no opróbrio e no laço do diabo. (1 Timóteo 3.1-7)

Por esta causa, te deixei em Creta, para que pusessem em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi: alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados. Porque é indispensável que o bispo seja irrepreensível como despenseiro de Deus, não arrogante, não irascível, não dado ao vinho, nem violento, nem cobiçoso de torpe ganância; antes, hospitaleiro, amigo do bem, sóbrio, justo, piedoso, que tenha domínio de si, apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem. (Tito 1.5-9)

Apesar do tamanho da lista vale ressaltar que Paulo provavelmente não pretendia que ela fosse exaustiva, ou seja, esses não são os únicos critérios a serem respeitados, mas apenas alguns básicos que ajudam a assegurar que os líderes da igreja serão realmente capazes de liderá-la.

A fim de organizar o estudo façamos uma lista das qualificações apresentadas pelos dois textos:

  • Irrepreensível — 1Tm 3.2; Tt 1.6

  • Esposo de uma só mulher — 1Tm 3.2; Tt 1.6

  • Temperante — 1Tm 3.2

  • Sóbrio — 1Tm 3.2; Tt 1.8

  • Modesto — 1Tm 3.2

  • Hospitaleiro — 1Tm 3.2; Tt 1.8

  • Amigo do bem — Tt 1.8

  • Justo — Tt 1.8

  • Piedoso — Tt 1.8

  • Tenha domínio de si — Tt 1.8

  • Apto para ensinar — 1Tm 3.2

  • Não dado ao vinho — 1Tm 3.3; Tt 1.7

  • Não arrogante — Tt 1.7

  • Não irascível — Tt 1.7

  • Não violento — 1Tm 3.3; Tt 1.7

  • Cordato — 1Tm 3.3

  • Inimigo de contendas — 1Tm 3.3

  • Não avarento — 1Tm 3.3

  • Não cobiçoso de torpe ganância — Tt 1.7

  • Governe bem a própria casa — 1Tm 3.4

  • Filhos sob disciplina — 1Tm 3.4; Tt 1.6

  • Não neófito — 1Tm 3.6

  • Bom testemunho dos de fora — 1Tm 3.7

  • Apegado à palavra fiel — Tt 1.9

  • Poder para exortar pelo reto ensino — Tt 1.9

  • Poder para convencer os que contradizem — Tt 1.9

Irrepreensível

Se tivermos alguma pretensão ao pastorado já somos convidados a desistir logo que lemos a primeira palavra: “irrepreensível”. Caramba! Já fui desqualificado logo na primeira da lista! Eu, miserável pecador, estou muito longe de ser irrepreensível.

Porém, se pensarmos mais alguns segundos, chegaremos a não difícil conclusão de que ninguém pode ser pastor, afinal, ninguém é perfeito. Somos todos humanos, pecadores por natureza. Mas então o que Paulo quis dizer com este “irrepreensível”?

A tradução da NTLH nos dá uma pista: “deve ser um homem que ninguém possa culpar de nada”. Significa que não podemos ser apanhados em nenhum escândalo. Não significa que não podemos ser acusados de nada (o que seria impossível), mas sim que não devemos ser condenados por essas acusações. Nossas vidas devem ser um exemplo de conduta, caso contrário tudo se esvairá pelo ralo.

Não é à toa que esta palavra está no início da lista. Ela é como uma síntese do que virá. Se nossa vida é desregrada e facilmente condenável por qualquer pessoa que seja, então nem adianta seguir em frente; não somos aprovados por Deus.

Esposo de uma só mulher

Alguns costumam brincar: uma de cada vez! Mas será que é isso mesmo? Este ponto costuma trazer algumas interpretações. Uns dizem que ele proíbe a poligamia; outros dizem que o pastor não pode ser solteiro.

Pessoalmente acredito que devemos tomar como base o que Deus diz acerca do casamento em geral. Se fizermos um estudo bíblico aprofundado sobre o tema “recasamento” — não é o objetivo deste estudo, portanto apenas farei uso das conclusões —, descobriremos que o divórcio somente é permitido por Deus em caso de infidelidade conjugal e, ainda assim, somente temos a autorização divina para tal se a outra parte não se arrepender de sua infidelidade e quiser, portanto, se afastar. Mesmo nesses casos não temos autorização de Deus para nos casarmos novamente. Um novo casamento seria visto por Deus como adultério, exceto em caso de viuvez. Nesta situação o recasamento deixa de ser um pecado e passa a ser permitido. Tendo isso como base um candidato a pastor não pode ser divorciado.

Analisando o caso dos solteiros, não parece que o objetivo de Paulo nesses textos seja desqualificá-los. Se assim fosse também desqualificaríamos os casados sem filhos, uma vez que outra qualificação é ter filhos sob disciplina. Se os solteiros fossem realmente desqualificados, como uniríamos tal conclusão com textos como 1 Coríntios 7.25-35, onde o mesmo Paulo nos afirma que os que não são casados conseguem servir melhor a Deus por não ter que gastar tempo cuidando do cônjuge?

Temperante

No grego “nephalios”; também traduzido como moderado (NVI e NTLH), sóbrio (BJ), vigilante (RC) e trabalhador incansável (BV). O termo grego normalmente refere-se ao cuidado com os excessos relativos a comida e, principalmente, a bebidas fortes; porém aqui parece tratar-se também de extremos em questões espirituais, uma vez que o mesmo termo também pode trazer a idéia de ajuizado.

Sóbrio

No grego “sophron”; também traduzido como sensato (NVI), cheio de bom senso (BJ), prudente (NTLH) e cuidadoso (BV). Significa que não devemos ser tolos ou insensatos, mas autocontrolados, sérios, esclarecidos e discretos.

Modesto

No grego “kosmos”; também traduzido como respeitável (NVI), simples no vestir (BJ), simples (NTLH), honesto (RC) e ordeiro (BV). Se usarmos a tradução direta do grego chegaremos em digno, bem-comportado ou sereno. A palavra grega “kosmos”, presente na criação de Deus, traz consigo a idéia de ordem, organização. Podemos, portanto, concluir que o que se espera de um pastor é que ele seja simples e organizado. Alguns comentaristas até defendem que ele deve ser metódico, o que, pessoalmente, acho um exagero de interpretação (apesar de ser beneficiado com tal argumento).

Hospitaleiro

As únicas traduções que trazem palavras diferentes de hospitaleiro são exatamente as duas que traduzem o texto bíblico com paráfrases. Encontramos deve estar disposto a hospedar pessoas na sua casa (NTLH) e deve ter prazer em receber hóspedes em casa (BV). O termo em si significa amigo do estrangeiro. A idéia que se passa aqui é que o pastor deve ter sempre sua casa aberta para receber e abençoar pessoas.

Essa característica era essencial no tempo da igreja primitiva, época em que as pessoas viajavam muito, principalmente os cristãos levando as boas novas, e normalmente tinham dificuldade em encontrar um lugar descente para ficar. Pensando nos dias de hoje, faz muito sentido que tal característica seja mencionada, uma vez que a igreja também pode ser vista como uma grande família e, portanto, deve sempre se preocupar com as necessidades dos irmãos. Se olharmos para textos como Romanos 12.13 veremos que o coração hospitaleiro deve ser uma característica do cristão em geral, e não somente do pastor.

Amigo do bem

No grego “philagatos”, que pode significar amante de homens bons, ou amante da bondade; também traduzido como bondoso (BJ).

Ora, nada mais natural do que esperar que o pastor de uma igreja seja alguém que devote sua vida alegremente, mesmo que isto signifique sofrer algum prejuízo, à prática do bem.

Justo

No grego “dikaios”, que significa reto segundo as exigências da lei. Todas as versões analisadas concordam com a tradução justo.

O líder da igreja de Deus deve ser alguém que segue as leis; reto perante a sociedade; que não pode ser achado dando jeitinhos, como costumam fazer a maioria dos brasileiros. Ele deve prezar para que a vida da igreja local seja correta, que pague seus impostos, que tenha tudo legalizado. Ele também ser capaz de julgar os casos que lhe chegarem às mãos com justiça.

Piedoso

No grego “osios”, que significa piedoso, agradável a Deus; também traduzido como consagrado (NVI), santo (RC), ter a mente pura (BV) e dedicado a Deus (NTLH).

Aqui a relação a ser analisada não é mais com a sociedade (como no caso de justo), mas com Deus. O servo escolhido deve ser um exemplo de cristão que a cada dia se parece mais com Cristo. A santidade deve ser uma marca em sua vida e o seu crescimento espiritual deve ser evidente para os que o cercam.

Tenha domínio de si

No grego “egkrates”, que significa autocontrolado, autodisciplinado; também traduzido como domínio próprio (NVI), temperante (RC), disciplinado (BJ e NTLH) e dotado de bom senso (BV).

Se realmente fomos chamados para o ministério pastoral, então devemos ter controle sobre nossos atos. Devemos estar sempre prontos a abandonar pecados (mesmo os de estimação) e saber como vencer as batalhas diárias entre as nossas vontades pecaminosas e a nossa consciência, que deve sempre ser comandada pelo Espírito Santo.

Uma vez que soubermos como manter o nosso corpo e a nossa mente sãos, colocando-os diariamente aos pés da cruz de Jesus e sabendo que por nós mesmos já teríamos perdido a batalha — para não dizer a guerra —, então estaremos prontos a deixar que Cristo comande nossas vidas e tenha domínio até sobre nossas vontades.

Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. (Gálatas 2.19-20)

Apto para ensinar

No grego “didaktikos”; também traduzido como competente no ensino (BJ), ter capacidade para ensinar (NTLH) e ser um bom mestre da Bíblia (BV).

Há controvérsias entre os comentaristas se esta qualificação defende ou não o fato do pastor ter o dom de ensino. Quando descobrimos que este termo didaktikos só volta a aparecer na Bíblia em 2 Timóteo 2.24, fica ainda mais difícil chegar a alguma conclusão. Não temos outros textos fora das epístolas pastorais que nos ajudam a trazer luz a este impasse.

Uma tradução livre deste termo é habilidoso no ensino. Uma vez que o dom dado pelo Espírito Santo não é simplesmente de pastor, mas de pastor-mestre, temos que concordar que é vital que o pastor tenha sim uma grande habilidade para expor as Escrituras. Imagino que nunca chegaremos a uma conclusão unânime acerca de se tratar ou não do dom de ensino, mas não devemos ser negligentes e desconsiderar ao menos a grande habilidade do pastor nesta área. Ele é o principal responsável por cumprir este papel na igreja e é a ele que as ovelhas seguirão; portanto, ele deve saber como conduzi-las, até mesmo intelectualmente.

Não dado ao vinho

No grego “paroinos”; também traduzido como não apegado ao vinho (NVI), não pode ser chegado ao vinho (NTLH) e não ter o vício da bebida (BV).

A idéia que o termo grego traz é alguém que não é viciado no vinho. Isso significa que a abstinência não é exigida como qualificação pastoral. Porém, talvez seja prudente que o pastor assuma uma vida abstêmica, ou ao menos que tenha cuidado redobrado nas situações em que for beber algo. Conhecemos a mente das pessoas e também a cultura etílica brasileira. Diante desses fatos, se decidirmos viver nossas vidas sem a bebida alcoólica, evitaremos um testemunho ruim (mesmo que não errado) às ovelhas fracas e aos descrentes; sem contar o fato de nos prevenir de qualquer brecha para um problema pessoal de alcoolismo que possa vir a desqualificar-nos no futuro.

Não arrogante

No grego “authade”; também traduzido como orgulhoso (NVI, BV e NTLH), soberbo (RC) e presunçoso (BJ). A tradução mais comum do grego é dotado de opinião obstinada.

O líder da igreja não deve ser alguém que supõe ser sempre o único que tem a verdade. A ele cabe apenas ensinar a verdade e, para tal, deve ouvir a opinião dos outros, meditar a respeito, estudar a Palavra e orar para que Deus o ajude a ensiná-la a de modo que as pessoas se convençam pela força do Espírito Santo e não por palavras duras ou por imposição.

Devemos lembrar que as ovelhas são fracas e, mais do que isso, não são nossas. Só estamos tomando conta delas por um tempo. Então, tenhamos sempre em mente que a arrogância será um forte indicativo de que estamos a um passo de achar que não precisamos mais de Deus. Lembre-se: a igreja não é sua, mas de Cristo; e você não passa de um servo que deve cumprir o seu mandato na dependência dele.

Não irascível

No grego “orgilos”; também traduzido como iracundo (RC), briguento (NVI), mau gênio (NTLH) e impaciente (BV).

O servo escolhido por Deus deve saber manter a calma em situações que o suscitariam ira. Para sermos seus servos devemos ter uma conduta paciente. Temos que aprender a contar até dez quando a ira aparecer, meditar sobre o ocorrido, orar pedindo sabedoria e calma e, finalmente, decidir o que fazer em amor.

Não violento

No grego “plektes”; também traduzido como espancador (RC), briguento (BJ e NTLH) e valentão (BV). O termo aqui não trata de violência verbal, mas física. Obviamente esse texto não defende que a verbal seja permitida; somente traz à luz outro assunto.

Se um pastor chegar, como se diz, às vias de fato com alguém, colocará em risco todo o seu testemunho e ministério. Sabemos que há situações que nos deixam irados e que praticamente pedem para uma ação mais enérgica, mas temos sempre que nos lembrar desta qualificação. Lembremos também que Jesus, ao ser esbofeteado, deu a outra face.

Um pastor amigo meu certa vez me disse — Quando você estiver numa situação de risco, ou seja, em que talvez a força física seja realmente necessária — e sabemos, lamentavelmente, que às vezes passamos por situações assim —, tenha sempre ao seu lado um ou mais irmãos grandes e fortes. Se necessário, eles farão o trabalho de agir em sua defesa e afastar a pessoa de perto da situação (só afastar, sem espancar). Oremos para que Deus nos livre de situações assim, mas, caso elas aconteçam, devemos ser sábios e estar preparados.

Cordato

No grego “epieikes”; também traduzido como amável (NVI e BV), moderado (RC), indulgente (BJ) e calmo (NTLH). O termo grego também pode significar gentil, bondoso ou pronto a ceder.

Usado em oposição a não violento, fica bem claro como o pastor deve ser. Ao invés de tentar resolver as questões com a força bruta ou de forma taciturna, é esperado que o servo de Deus aja com amor, paciência, calma e sabedoria; da mesma forma que Jesus agiu quando viveu entre nós.

Inimigo de contendas

No grego “amachon”; também traduzido como não contencioso (RC), pacífico (NVI, BJ e NTLH) e bondoso (BV). A tradução direta da palavra grega é pacífico, como bem escolheu a maioria das traduções. Esta palavra só vem completar a idéia desenvolvida desde o termo não violento — que o homem escolhido por Deus para conduzir sua igreja deve ser alguém emocionalmente controlado; pronto a enfrentar os perigos com sabedoria, deixando que Deus lute por ele.

Não avarento

No grego “aphilarguros”; também traduzido como não apegado ao dinheiro (NVI), desinteresseiro (BJ), não deve amar o dinheiro (NTLH) e não ter amor ao dinheiro (BV). O termo grego traz em si mesmo a idéia de amor ao dinheiro, mais do que simplesmente avarento (que seria “pleonektes”).

O princípio é que o servo de Deus deve servir com o foco na vida espiritual de suas ovelhas e nunca no lucro. É verdade também que a igreja deve sustentar seu pastor, que aquele que se afadiga na palavra e no ensino é merecedor de dobrados honorários (1Tm 5.17) etc., mas Deus não nos chama para enriquecer. Ele chama para conduzir o seu rebanho, prometendo que nunca nos faltará nada. Temos que confiar que Deus irá nos sustentar e honrar com tudo o que necessitarmos — ouso afirmar que com até mais.

O próprio Paulo, pouco depois de falar a Timóteo acerca dos presbíteros, trata sobre a busca por riquezas. Veja 1 Timóteo 6. 6-19. Destaco aqui apenas dois versos:

Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé, e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. Tu, porém, ó homem de Deus, foge dessas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão. (1 Timóteo 6.10-11)

Que tristeza ver tantos líderes de igrejas evangélicas se enriquecendo de forma tão estranha — para dizer o mínimo — enquanto as pessoas assistem a tudo e julgam tão mal, como bem sabemos que elas fazem, a causa cristã. Até quando ouviremos frases como: “Quer ficar rico? Abra uma igreja!”?

Não cobiçoso de torpe ganância

No grego “aischrokerdes”, que significa cobiçoso de ganho desonesto; também traduzido como ávido por lucro desonesto (NVI e BJ) e ganancioso (NTLH e BV).

Na mesma linha de não avarento, que aparece na carta a Timóteo, Paulo dá um passo além quando escreve a Tito. Se já não era correto o apego ao dinheiro, que dirá se ele tiver origem desonesta? Devemos sempre lembrar que o servo de Deus deve ter em mente o reino dos céus.

Governe bem a própria casa

No grego “proistemi”, que significa ser o cabeça, conduzir, gerir. Também traduzido como ser um bom chefe da sua própria família (NTLH).

A seqüência do texto completa o princípio aqui definido. Como se espera que alguém seja um líder da igreja de Deus se não é um líder em seu próprio lar? Portanto, sua casa deve servir como espelho do que será sua liderança sobre a igreja. Se alguém pretende ser um pastor deve primeiro exercê-lo em sua própria família (esposa e filhos), que nada mais é do que sua mini-igreja.

Filhos sob disciplina

Também traduzido como tendo os filhos sujeitos a ele (NVI), mantendo os filhos na submissão (BJ), tendo seus filhos em sujeição (RC), saber educar os seus filhos de maneira que eles lhe obedeçam (NTLH) e com filhos que obedeçam depressa (BV).

Se olharmos somente o texto de 1 Timóteo ficaremos na dúvida quanto ao nível de submissão requerido. Os filhos devem ser apenas educados e obedientes, ou devem ser salvos? Esta afirmação é forte, pois implica que, se os filhos não forem salvos, o pai perde a qualificação para o pastorado.

O texto equivalente em Tito nos traz luz à questão. Nele Paulo diz: “[...] que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados” (Tt 1.6b). Outras traduções trazem tenha filhos fiéis (RC), seus filhos devem amar ao Senhor (BV), cujos filhos tenham fé (BJ) e seus filhos devem ser cristãos (NTLH).

No grego, o termo usado é “pistos”, que pode significar crente ou fiel; o que pode nos deixar em dúvida quanto ao significado. Se supusermos que Paulo pensou em fiel, podemos perguntar: fiel a quem? Aos pais ou a Deus?

Ora, se o pai é um pastor, obviamente ele é salvo e sua esposa também o é (caso contrário ele não seria qualificado). Isso significa que seus filhos serão seu rebanho particular. Nada mais natural do que os pais educarem seus filhos de modo a apresentar o quanto antes o evangelho a eles. O contexto diário familiar será (ou ao menos deveria ser) cristão. Como admitir, num contexto como este, que um filho seja fiel aos seus pais, mas não seja fiel a Jesus Cristo? É possível isto? Não faz sentido algum; de modo que defendo que Deus, o dono da salvação e o maior interessado no ministério deste pai de família, fará com que também os filhos sejam salvos; caso contrário, será nada menos do que a confirmação divina de que seu servo pastor deve deixar o ministério enquanto seus filhos não se renderem a Jesus ou enquanto permanecerem vivos. É doloroso, mas parece que é isso mesmo o que Deus diz em sua Palavra.

Não neófito

No grego “neophutos”; também traduzido como recém-convertido (NVI e BJ), cristão novato (BV) e convertido há pouco tempo (NTLH). Uma tradução literal do grego seria recém-plantado.

Para que alguém entre no ministério pastoral esta pessoa deve ter uma considerável caminhada com Deus. Deve ser experimentado em várias situações para que saiba como conduzi-las com sabedoria. Um pastor deve ser um profundo conhecedor das Escrituras, e não estou pensando somente em conhecimento acadêmico, mas um conhecimento que se mostre em atitude de vida com Deus e com os irmãos. Isso tudo leva tempo. Sabemos que a caminhada com Cristo leva a vida toda e que estamos sempre crescendo. Colocar uma pessoa que está há pouco tempo neste caminho é um risco enorme para a igreja e para o pastor que, por falta de experiência, pode acabar sendo enganado, envergonhado e, pior ainda, pode cair na mesma condenação do diabo — achar-se mais importante e poderoso que o próprio Deus — como exorta o próprio Paulo na continuação deste mesmo texto.

Não há como definir uma idade mínima, nem tampouco dizer quanto tempo de conversão é necessário para considerar se alguém está preparado. Isso tudo acaba sendo muito subjetivo e a própria igreja deverá depender do Senhor para definir quando é o momento correto. Meu conselho é que a igreja ore a respeito e, enquanto houver dúvida, não será prudente seguir adiante com a ordenação.

Bom testemunho dos de fora

No grego “marturia” (testemunho); também traduzido como boa reputação (NVI), bem conceituado (BV) e respeitado (NTLH).

Em adição ao fato de não der neófito e tudo o mais dito acima, Paulo conclui as qualificações olhando para os descrentes. Pode parecer estranho que um quesito definido por Deus seja algo que cabe aos ímpios decidir (sem nem saber que estão fazendo isso). Ora, se alguém é visto pelos descrentes como de má reputação, então esta pessoa deve ser descartada como candidato a pastor; afinal, que credibilidade ela vai passar como líder de uma igreja?

É interessante notar que, por mais que o mundo esteja corrompido, imerso no pecado, lá no fundo ainda há um padrão de moral aceito pela sociedade que vai ao encontro dos princípios divinos. Acredito que seja o que sobrou da imagem e semelhança de Deus no homem. Mesmo os incrédulos têm isso em si e, portanto, têm totais condições de dizer se alguém é ou não de boa reputação.

Certa vez o autor de um livro — infelizmente não me lembro quem era para poder dar o devido crédito — fez uma análise do comportamento humano. A questão era a seguinte: Por que os ímpios, além de não reconhecerem a Cristo como Salvador, perseguem os cristãos? O que os agride tanto a ponto de se revoltarem contra os seguidores de Cristo? Afinal, os cristãos nada fazem de mal que justifique tal revolta. A conclusão do autor é que a vida do cristão evidencia os erros do ímpio e, como conseqüência, este se sente agredido. No fundo ele sabe que está errado e, ver alguém ir contra a maré e fazer o que é o correto, faz com que ele se rebaixe. O que fazer então? Acabar com a fonte do mal-estar: o cristão.

Isso nos mostra que o ímpio tem em si mesmo um senso de certo e errado. Pode estar deturpado, adormecido ou qualquer coisa do gênero, mas está lá. E, quando aparece alguém justo, honesto e de boa reputação, até mesmo o descrente o reconhece como tal. Por isso Deus colocou este critério na lista de qualificações.

Sem contar que a chance de um descrente dar ouvidos a pessoas lideradas por alguém que ele admira é muito maior. Eu, por exemplo, tenho vários amigos que não entram numa igreja nem amarrados, mas já me garantiram que, quando eu for pastor e fizer o meu primeiro sermão, estarão lá para me ouvir — Mas só uma vez, hein Thiago!? — a maioria disse. Minha oração é para que Deus me use nesta minha única oportunidade. Mal sabem eles que, para o Criador dos céus e da terra, basta meia vez!

CONCLUSÃO

Para concluir deixei o “apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem” para o final.

De nada adianta alguém ser aprovado em todas essas difíceis qualificações se, no fim das contas, não for um servo apegado à Palavra de Deus. Mas não apenas um estudioso, como tantos nos dias de hoje. Ele deve realmente crer na Palavra como algo inspirado por Deus, escrito por Deus, pelas mãos de seus inspirados seguidores, através da história. Algo inerrante, totalmente fiel, sem erro algum e todas as demais redundâncias que você conseguir imaginar. É importante que se diga isto, pois vivemos na era do relativismo; da multiplicidade de verdades, e isto é totalmente contra tudo o que nos foi revelado por Deus.

A Bíblia nos deve ser útil como manual de conduta de vida e, se somos verdadeiramente pastores, cabe a nós ensiná-la para que as ovelhas de Deus saibam viver de acordo com a ela.

Mais do que isso, uma vez que conhecemos a verdade — e para que seja verdade, todo o contrário tem que ser mentira — também nos foi entregue a missão de convencer aos que nos contradizem. Porém, devemos saber que não somos nós que convencemos ninguém, mas a própria verdade convence; e a verdade é Cristo.

Eu sou o caminho, a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim. Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. (João 14.6-7)

BIBLIOGRAFIA

A Bíblia Anotada (Revista e Atualizada – 1ª edição)

A Bíblia Viva

Bíblia Almeida Revista e Corrigida

Bíblia de Estudo NVI

Bíblia de Estudo Vida

Bíblia de Jerusalém (versão católica)

Bíblia Nova Tradução na Linguagem de Hoje

ASCOL, Thomas K. Amado Timóteo. São José dos Campos: Editora Fiel, 2005

BARRIENTOS, Alberto. Trabalho Pastoral — Princípios e alternativas. São Paulo: United Press, 1999

CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2002

GROESCHEL, Craig. Confissões de um pastor: por que decidi tirar a máscara da perfeição. São Paulo: Mundo Cristão, 2007

MACARTHUR JR, John. Ministério pastoral: Alcançando a excelência no ministério cristão. Rio de Janeiro: CPAD, 2007

MACDONALD, William. Comentário Bíblico Popular — Novo Testamento versículo por versículo. São Paulo: Mundo Cristão, 2008


Thiago André Monteiro
2009-05-21

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