Baú de Crônicas

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Liderar é dividir o poder

Publicado por Thiago André Monteiro em 30/Junho/2009

É muito comum falar-se de níveis e ou graus de liderança.

Quase sempre, Jesus se destaca como o exemplo máximo em qualquer tipo de abordagem que se faça, o que é absolutamente justo, pois ele o é mesmo!

Mas eu quero abordar um aspecto da liderança (no qual Jesus também reina soberano), a partir de um engano teológico muito comum nas abordagens do assunto.

Trata-se do extraordinário conselho que o sogro de Moisés (Jetro) lhe deu no deserto.

Primeiro vamos ver como isso ocorreu:

14Vendo, pois, o sogro de Moisés tudo o que ele fazia ao povo, disse: Que é isto que fazes ao povo? Por que te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até ao pôr-do-sol?
15Respondeu Moisés a seu sogro: É porque o povo me vem a mim para consultar a Deus; 16quando tem alguma questão, vem a mim, para que eu julgue entre um e outro e lhes declare os estatutos de Deus e as suas leis.
17O sogro de Moisés, porém, lhe disse: Não é bom o que fazes. 18Sem dúvida, desfalecerás, tanto tu como este povo que está contigo; pois isto é pesado demais para ti; tu só não o podes fazer. 19Ouve, pois, as minhas palavras; eu te aconselharei, e Deus seja contigo; representa o povo perante Deus, leva as suas causas a Deus, 20ensina-lhes os estatutos e as leis e faze-lhes saber o caminho em que devem andar e a obra que devem fazer. 21Procura dentre o povo homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza; põe-nos sobre eles por chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinqüenta e chefes de dez; 22para que julguem este povo em todo tempo. Toda causa grave trarão a ti, mas toda causa pequena eles mesmos julgarão; será assim mais fácil para ti, e eles levarão a carga contigo. 23Se isto fizeres, e assim Deus to mandar, poderás, então, suportar; e assim também todo este povo tornará em paz ao seu lugar.
24Moisés atendeu às palavras de seu sogro e fez tudo quanto este lhe dissera. — (Êxodo 18.14–24)

Algumas rápidas observações sobre esse conselho de Jetro:

  • Sua pergunta foi corretíssima: “que é isso que fazes ao povo? pois na verdade, Moisés além de prejudicar a si mesmo estava prejudicando o povo, o dia todo, todo dia.

  • A resposta de Moisés é típica: é por minha causa, pela minha posição, pela minha autoridade, pela minha liderança… etc. e tal.

  • Não é bom o que fazes: tu desfalecerás e o povo também.

  • Tu só não o podes fazer, é pesado demais.

  • Ouve o meu conselho e Deus seja contigo…

  • Não abra mão do seu papel sacerdotal.

  • Não abra mão do seu papel profético.

  • Mas abra mão do atender as demandas do povo (status, fama, respeito e poder).

  • Procura homens capacitados (um excelente currículo).

  • Coloca-os para atender o povo em todo o tempo.

  • Você só ficará com os assuntos mais importantes.

  • Será mais fácil para você, eles dividirão sua carga e o povo ficará em paz.

  • Tudo isso se Deus confirmar e você assim fizer…

Até aqui tudo bem, nada de novo, sem reparo algum.

A questão torna-se ainda mais relevante, quando observamos que o próprio Deus já havia dado a Moisés uma orientação bem parecida e com características ainda mais interessantes.

Para colocar a ordem de Deus antes do conselho de Jetro é preciso pontuar o tempo em que elas aconteceram. Em Êxodo 16, Deus, em resposta às reclamações do povo providencia o maná e as codornizes. Isto é antes do conselho de Jetro no capítulo 18.

Em Números 11.4–15 lemos, em outras palavras, a mesma reclamação do povo:

4E o populacho que estava no meio deles veio a ter grande desejo das comidas dos egípcios; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar e também disseram: Quem nos dará carne a comer? 5Lembramo-nos dos peixes que, no Egito, comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos. 6Agora, porém, seca-se a nossa alma, e nenhuma coisa vemos senão este maná.
7Era o maná como semente de coentro, e a sua aparência, semelhante à de bdélio. 8Espalhava-se o povo, e o colhia, e em moinhos o moía ou num gral o pisava, e em panelas o cozia, e dele fazia bolos; o seu sabor era como o de bolos amassados com azeite. 9Quando, de noite, descia o orvalho sobre o arraial, sobre este também caía o maná.
10Então, Moisés ouviu chorar o povo por famílias, cada um à porta de sua tenda; e a ira do SENHOR grandemente se acendeu, e pareceu mal aos olhos de Moisés. 11Disse Moisés ao SENHOR: Por que fizeste mal a teu servo, e por que não achei favor aos teus olhos, visto que puseste sobre mim a carga de todo este povo? 12Concebi eu, porventura, todo este povo? Dei-o eu à luz, para que me digas: Leva-o ao teu colo, como a ama leva a criança que mama, à terra que, sob juramento, prometeste a seus pais? 13Donde teria eu carne para dar a todo este povo? Pois chora diante de mim, dizendo: Dá-nos carne que possamos comer. 14Eu sozinho não posso levar todo este povo, pois me é pesado demais. 15Se assim me tratas, mata-me de uma vez, eu te peço, se tenho achado favor aos teus olhos; e não me deixes ver a minha miséria.

Nesse texto acrescentam-se alguns detalhes como a própria e extremada reclamação de Moisés.

Então Deus dá a resposta, nos vs. 16–17:

16Disse o SENHOR a Moisés: Ajunta-me setenta homens dos anciãos de Israel, que sabes serem anciãos e superintendentes do povo; e os trarás perante a tenda da congregação, para que assistam ali contigo. 17Então, descerei e ali falarei contigo; tirarei do Espírito que está sobre ti e o porei sobre eles; e contigo levarão a carga do povo, para que não a leves tu somente.

Depois ele dá as codornizes, vs. 18–20:

18Dize ao povo: Santificai-vos para amanhã e comereis carne; porquanto chorastes aos ouvidos do SENHOR, dizendo: Quem nos dará carne a comer? Íamos bem no Egito. Pelo que o SENHOR vos dará carne, e comereis. 19Não comereis um dia, nem dois dias, nem cinco, nem dez, nem ainda vinte; 20mas um mês inteiro, até vos sair pelos narizes, até que vos enfastieis dela, porquanto rejeitastes o SENHOR, que está no meio de vós, e chorastes diante dele, dizendo: Por que saímos do Egito?

Agora, então, vem o que realmente importa.

Antes mesmo de dar uma resposta ao povo, Deus trata diretamente com Moisés.

Na solução de Deus, a proposta era que Moisés fosse muito além de apenas delegar tarefas do dia a dia com supervisores do povo, o que também era importante.

Mas, Deus queria que Moisés tivesse um grupo com ele, que se chegasse à tenda da congregação (onde Deus falava com Moisés), e que Deus repartiria com eles o próprio Espírito que Ele tinha posto em Moisés. Eles estariam com Moisés para levarem juntos o pastoreio de todo o povo.

Moisés obedeceu no início, mas aparentemente ele não deu a eles outras oportunidades de dividirem o poder:

24Saiu, pois, Moisés, e referiu ao povo as palavras do SENHOR, e ajuntou setenta homens dos anciãos do povo, e os pôs ao redor da tenda. 25Então, o SENHOR desceu na nuvem e lhe falou; e, tirando do Espírito que estava sobre ele, o pôs sobre aqueles setenta anciãos; quando o Espírito repousou sobre eles, profetizaram; mas, depois, nunca mais. — (Números 11.24–25)

Aí está o xis da questão: Delegar tarefas ou dividir poder?

Evidentemente, que precisamos fazer as duas coisas, mas é muito mais fácil ser pragmático no atender o conselho de Jetro, e não praticar o conselho de Deus.

Também é necessário destacar que “o poder” que dividimos não nos pertence. Não se trata de capacidade, conhecimento, experiência ou qualquer outra virtude humana. Trata-se das virtudes de Deus, do poder de Deus, do Espírito de Deus. Moisés prontamente aceitou delegar tarefas, mas não foi tão fácil dividir o poder.

Por isso, o nível mais elevado de liderança, não apenas delega tarefas, mas também divide o poder, isto é, a visão, o chamado, a vocação, a autoridade, a honra e o privilégio de liderar o povo de Deus!

É fácil liderar subordinados, difícil é fazê-los iguais a nós e repartir o poder com eles!

Com quem você tem dividido o poder?

Daniel Reis
2009–06–30

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Monólogo do homem da casa

Publicado por Thiago André Monteiro em 24/Março/2009

Hoje eu vou aproveitar a minha Happy Hour.
Vou dar um giro nesse parque, depois vou beber alguma coisa e vou mais cedo para casa.
Vai ser uma surpresa para a Roberta. Eu nunca cheguei tão cedo em casa.
(anda cantarolando todo feliz pela praça, quando de repente ele vê um papel no chão)

Que coisa, como tem gente mal educada nesta cidade. Por que não jogam o lixo no lixo?
Além disso é um papel rasgado… a outra parte até deve estar jogada por aí também…

… o que está escrito neste papel?

TEM UM HOMEM NA SUA CASA?

Como assim, tem um homem em minha casa? Que bobagem, é claro que tem. Que tipo de coisa estava escrito aqui para se fazer uma pergunta tão tola.

Tá bom… tá bom… é só amassar e jogar fora, e pronto, acabou a conversa.
(ele pega o papel, amassa e joga numa lixeira que encontra perto de um banco, onde ele senta).

Tem um homem em sua casa. Que pergunta mais tola. Claro que tem. Inclusive tem 2. Eu e meu filho.

Porque alguém faria uma pergunta assim? Será que é de algum movimento feminista, defendendo que as mulheres não precisam de um homem?
(ele volta para o lixo e procura o papel amassado e vai ler com mais cuidado…)

É, não tem nada mais escrito… só o título. Deve ser bobagem mesmo. (joga no lixo novamente)
Mas… que perguntinha impertinente. Não consigo pensar em outra coisa.
Será que ela está querendo checar se eu sou mesmo o homem da minha casa?
Se fosse isso, o que realmente eu teria como resposta?

UM HOMEM EM MINHA CASA seria o homem que eu tenho sido para a minha família?
— tenho assumido as responsabilidades como homem da casa. Claro que sim. Claro, quem é que trabalha e traz tudo para dentro de casa? Não sou eu? Claro que sim. Tá certo que a minha esposa até ajuda com o salário dela… o que é ótimo, diga-se de passagem.
— será que eu tenho sido um líder para a minha família? No sentido de educação, ambiente, comunicação, convivência, envolvimento e participação na vida do dia a dia?
— não sei não… acho que eu precisaria melhorar um pouco nessas coisinhas…

UM HOMEM EM MINHA CASA seria o marido que minha esposa tem tido em mim?
— óbvio que sim… foi comigo que ela casou. Casou por que quis casar… por que me escolheu…
— mas… será que eu a faço feliz?
— Eu dou segurança emocional para ela?
— eu sou parceiro dela em todos os seus momentos?
— Minha consideração e carinho para com ela está sempre em primeiro lugar?
— Eu tenho cuidado espiritualmente dela?
— tenho dedicado tempo para estar e dar atenção a ela?

… é acho que nesses assuntos tenho sido um pouco relaxado também…

UM HOMEM EM MINHA CASA seria o pai que os meus filhos têm visto em mim?
— eu tenho acompanhado de perto a vida dos meus filhos?
— tenho sido um amigo próximo deles? Quem sabe o melhor amigo?
— tenho passado para eles os verdadeiros valores da vida?
— tenho mantido um relacionamento aberto e franco com eles?
— tenho investido tempo para estar junto com eles?

Caramba meu… que é isso… um inventário do celebrando?

Que perguntinha mais chata…
(ele volta ao lixo e pega de novo o papel…)

Como eu gostaria de encontrar a outra parte desse papel…

Eu gostaria muito de saber o que estava escrito como resposta para essa pergunta…

SERÁ QUE TEM UM HOMEM NA MINHA CASA?

Bem-aventurado o homem que teme ao SENHOR e anda nos seus caminhos!
Do trabalho de tuas mãos comerás, feliz serás, e tudo te irá bem.
Tua esposa, no interior de tua casa, será como a videira frutífera;
teus filhos, como rebentos da oliveira, à roda da tua mesa.
Eis como será abençoado o homem que teme ao SENHOR!

Daniel Reis
2009-03-24

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O poder da linguagem

Publicado por Thiago André Monteiro em 10/Março/2009

Linguagem
Há tempos escrevi um texto sobre o poder da linguagem, mas não conseguia de forma alguma concluí-lo. Pensava em várias aplicações, mas elas sempre eram limitadas demais, o que me deixava insatisfeito com o resultado.

Depois de relutar algum tempo, decidi engavetá-lo. Em algum momento teria uma idéia sensacional para a conclusão, mas essa idéia parecia não vir nunca. Até que, durante uma aula, finalmente me veio a grande conclusão: Não preciso de conclusão! Qualquer coisa que eu escreva vai limitar o entendimento e estragar todas as outras possibilidades.

Pensei então o que viria à mente de alguém lendo um texto que, do nada, acaba. – Que raios é isso? – pensaria o leitor. – Cadê o fim do texto?

De imediato ele acharia uma porcaria, mas ficaria com aquilo na cabeça. Ora, de um jeito ou de outro, conseguiria o meu objetivo: fazer o leitor meditar sobre o texto e aplicá-lo da forma que achar melhor. Aliás, sugiro que cada um que o ler deixe nos comentário sua própria aplicação. Dito isto, segue o texto: O PODER DA LINGUAGEM.

* * *

Será que a nossa linguagem é mesmo tão poderosa? Será que usar formas diferentes para passar adiante uma mesmíssima mensagem pode fazer com que pessoas ajam de maneiras opostas? Alguém aqui poderia afirmar que não. Afinal, se a mensagem for a mesma, como as pessoas entenderiam coisas diferentes a ponto de tomar atitudes contrárias? Porém, apesar de parecer estranho, não é bem isso o que acontece. Não somos autômatos; zero ou um. Um olhar, um toque, uma pausa, a escolha correta das palavras pode transformar uma mesma mensagem em algo positivo ou algo desastrosamente negativo.

Daniel Kahneman, vencedor do prêmio Nobel, e seu colega Amos Tversky desenvolveram um teste para mostrar como uma simples mudança na apresentação de determinada mensagem pode afetar nossas decisões. Criaram uma pesquisa apresentando duas opções de programas de saúde pública. Apenas uma delas deveria ser escolhida e imediatamente implementada numa população de 600 pessoas em determinada comunidade gravemente doente. As opções eram as seguintes:

Se o programa A for aplicado sabemos que 200 pessoas serão salvas; porém, se aplicarmos o programa B, teremos um terço de chance de salvar as 600 pessoas e dois terços de não salvar ninguém.

Se dependesse de você, qual seria a sua opção? Pense um pouco e não siga adiante enquanto não tiver se decidido por uma delas.

A pesquisa acima foi feita e constatou-se que a maioria da pessoas preferiam que o programa A fosse colocado em ação ao invés do programa B.

Posteriormente, Kahneman e Tversky aplicaram novamente a pesquisa, porém agora apresentaram outras duas opções de programas:

Se o programa C for aplicado sabemos que 400 vidas serão perdidas; entretanto, se aplicarmos o programa D, teremos um terço de chance de não morrer ninguém e dois terços das 600 pessoas falecerem.

Novamente pergunto: dado estas opções, qual seria a sua escolha? Quando tal pesquisa foi aplicada constatou-se que a maioria das pessoas optaram pelo programa D.

O curioso é que, se compararmos os quatro programas apresentados, notaremos que os programas A e C são equivalentes. O mesmo pode-se concluir dos programas B e D. Entretanto, a forma usada para apresentar a pesquisa fez com que a opção da maioria mudasse.

Na verdade Kahneman e Tversky aplicaram tal pesquisa para estudar a teoria de finanças comportamentais, chegando à conclusão de que o ser humano é avesso ao risco quando têm que escolher entre um ganho certo ou a possibilidade de um ganho maior. Porém, o mesmo ser humano prefere aceitar a idéia de ter ao menos uma chance de ganhar quando é forçado a escolher entre uma perda certa ou a probabilidade de uma perda maior ainda.

Nós, contudo, podemos aproveitar essas conclusões e aplicar em nossas vidas cristãs. É fato, como visto no exemplo acima, que o ser humano toma suas decisões não apenas com base na razão; suas emoções têm grande parte na decisão final. Isso nos mostra o quanto nossa linguagem – fala, gestos e expressões – influenciam nosso próximo…

Thiago André Monteiro
2009-03-10

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