Infalibilidade: a última pretensão papal
Publicado por Thiago André Monteiro em 5/Julho/2007
Sei que o texto é longo, mas, tirando a Bíblia, é um dos mais espetaculares que já li, de modo que acredito que vale a pena gastar algum tempo com ele.
Para aqueles que não podem ou não gostam de ler no monitor por tanto tempo, montei um documento com o mesmo conteúdo para que seja impresso e lido mais tarde. Para baixá-lo, basta clicar AQUI.
O contexto é o seguinte: nos anos de 1869 a 1870 foi realizado o concílio do Vaticano. Entre outros tópicos, o item mais importante a ser discutido e votado era a infalibilidade papal, até então não sacramentada pela igreja católica.
Obviamente tal assunto gerou muita discussão. Alguns bispos eram contrários, outros não, mas um deles se destacou. Seu nome era Josip Jurai Strossmayer, bispo croata da cidade de Djacovo. Segue, na íntegra, seu esplendoroso discurso.
* * *
Veneráveis padres e irmãos:
Não sem temor, porém com uma consciência livre e tranqüila, ante Deus que nos julga, tomo a palavra nesta augusta assembléia.
Prestei toda a minha atenção aos discursos que se pronunciaram nesta sala, e anseio por um raio de luz que, do alto, ilumine a minha inteligência e me permita votar os cânones deste concílio Ecumênico com perfeito conhecimento de causa.
Compenetrado da minha responsabilidade, pela qual Deus me pedirá contas, estudei com a mais escrupulosa atenção os escritos do Antigo e do Novo Testamento, e interroguei esses veneráveis monumentos da Verdade sobre esta magna questão: se o pontífice que preside aqui é verdadeiramente o sucessor de São Pedro, vigário de Cristo e infalível doutor da igreja.
Transportei-me aos tempos em que ainda não existiam o ultramontanismo e o galicanismo, em que a igreja tinha por doutores São Paulo, São Pedro, São Tiago e São João, aos quais não se pode negar a autoridade divina sem pôr em dúvida o que a santa Bíblia nos ensina, santa Bíblia que o concílio de Trento proclamou como a Regra da Fé e da Moral. Abri essas sagradas páginas e sou obrigado a dizer-vos: nada encontrei que sancione, próxima ou remotamente, a opinião dos ultramontanos! E maior é a minha surpresa quando, naqueles tempos apostólicos, nada há que fale de papa sucessor de São Pedro e vigário de Jesus Cristo!
Vós, monsenhor Manning, direis que blasfemo; vós, monsenhor Pio, direis que estou demente! Não, monsenhores; não blasfemo, nem perdi o juízo! Tendo lido todo o Novo Testamento, declaro, ante Deus e com a mão sobre o crucifixo, que nenhum vestígio encontrei do papado.
Não me recuseis a vossa atenção, meus veneráveis irmãos! Com os vossos murmúrios e interrupções justificais os que dizem, como o padre Jacinto, que este concílio não é livre; se assim for, tendes em vista que esta augusta assembléia, que prende a atenção de todo o mundo, cairá no mais terrível descrédito.
Agradeço a S. Ex., o monsenhor Dupanloup, o sinal de aprovação que me faz com a cabeça; isso me alenta e anima a prosseguir.
Lendo, pois, os santos livros, não encontrei neles um só capítulo, um só versículo que dê a São Pedro a chefia sobre os apóstolos. Não só o Cristo nada disse sobre este ponto, como, ao contrário, prometeu tronos a todos os apóstolos (Mateus 19.28), sem dizer que o de Pedro seria mais elevado que os dos outros! Que diremos do seu silêncio? A lógica nos ensina a concluir que o Cristo nunca pensou em elevar Pedro à chefia do Colégio Apostólico.
Quando Cristo enviou os seus discípulos a conquistar o mundo, a todos – igualmente – deu o poder de ligar e desligar, a todos – igualmente – fez a promessa do Espírito Santo.
Dizem as Santas Escrituras que até proibiu a Pedro e a seus colegas de reinar ou exercer senhorio (Lucas 22.25-26).
Se Pedro fosse eleito papa, Jesus não diria isso, porque, segundo a nossa tradição, o papado tem uma espada em cada mão, simbolizando os poderes espiritual e temporal. Ainda mais: se Pedro fosse papa ou chefe dos apóstolos, permitiria que esses seus subordinados o enviassem, com João, a Samaria, para anunciar o evangelho do Filho de Deus? (Atos 13.14).
Que direis vós, veneráveis irmãos, se nos permitíssemos, agora mesmo, mandar a Sua Santidade Pio IX, que aqui preside, e Sua Eminência, Monsenhor Plantier, ao Patriarca de Constantinopla, para convencê-lo de que deve acabar com o cisma do Oriente? O símile é perfeito, haveis de concordar.
Mas temos coisa ainda melhor: Reuniu-se em Jerusalém um concílio ecumênico para discutir questões que dividiam os fiéis. Quem devia convocá-lo? Sem dúvida Pedro, se fosse papa. Quem devia presidi-lo? Por certo que Pedro. Quem devia formular e promulgar os cânones? Ainda Pedro, não é verdade? Pois bem: nada disso sucedeu! Pedro assistiu ao concílio com os demais apóstolos, sob a direção de Tiago! (Atos 15).
Assim, parece-me que o filho de Jonas não era o primeiro, como sustentais.
Encarando agora por outro lado, temos: enquanto ensinamos que a igreja está edificada sobre Pedro, São Paulo (cuja autoridade devemos todos acatar) diz-nos que ela está edificada sobre o fundamento da fé dos apóstolos e profetas, sendo Jesus Cristo a principal pedra do ângulo (Epístola aos Efésios 2.20).
Esse mesmo Paulo, ao enumerar os ofícios da igreja, menciona apóstolos, profetas, evangelistas e pastores; e será crível que o grande apóstolo dos gentios se esquecesse do papado, se o papado existisse? Esse olvido me parece tão impossível como o de um historiador deste concílio que não fizesse menção de Sua Santidade Pio IX. (Apartes: Silêncio, herege! Silêncio!)
Acalmai-vos, veneráveis irmãos, porque ainda não concluí. Impedindo-me de prosseguir, provareis ao mundo que sabeis ser injustos, tapando a boca do mais pequeno membro desta assembléia. Continuarei:
O apóstolo Paulo não faz menção, em nenhuma das suas epístolas às diferentes igrejas, da primazia de Pedro; se essa existisse e se ele fosse infalível como quereis, poderia Paulo deixar de mencioná-la, em longa epístola sobre tão importante ponto?
Concordai comigo: a igreja nunca foi mais bela, mais pura e mais santa que naqueles tempos em que não tinha papa. (Apartes: Não é exato; não é exato!)
Por que negais, Monsenhor de Laval? Se algum de vós outros, meus veneráveis irmãos, se atreve a pensar que a igreja, que hoje tem um papa (que vai ficar infalível), é mais firme na fé e mais pura na moralidade que a igreja Apostólica, diga-o abertamente ante o Universo, visto como este recinto é um centro do qual as nossas palavras voam de polo a polo! Calai-vos? Então continuarei:
Também nos escritos de São Paulo, se São João, ou de São Tiago, não descubro traço algum do poder papal! São Lucas, o historiador dos trabalhos missionários dos apóstolos, guarda silêncio sobre tal assunto! Isso deve preocupar-vos muito. Não me julgueis cismático!
Entrei pela mesma porta que vós outros; o meu título de bispo deu-me direito a comparecer aqui, e a minha consciência, inspirada no verdadeiro cristianismo, me obriga a dizer-vos o que julgo ser verdade.
Penso que, se Pedro fosse vigário de Jesus Cristo, ele não o sabia, pois que nunca procedeu como papa: nem no dia de Pentecostes, quando pregou seu primeiro sermão, nem no concílio de Jerusalém, presidido por São Tiago, nem na Antioquia, e nem nas Epístolas que dirigiu às igrejas. Será possível que ele fosse papa sem o saber?
Parece-me escutar de todos os lados: pois São Pedro não esteve em Roma? Não foi crucificado de cabeça para baixo? Não existem os lugares onde ensinou e os altares onde disse missa nessa cidade?
E eu responderei: só a tradição, veneráveis irmãos, é que nos diz ter São Pedro estado em Roma; e como a tradição é tão somente a tradição da sua estada em Roma, é com ela que me provareis o seu episcopado e a sua supremacia?
Scalígero, um dos mais eruditos historiadores, não vacila em dizer que o episcopado de São Pedro e sua residência em Roma se devem classificar no número de lendas mais ridículas! (Repetidos gritos e apartes: Tapai-lhe a boca, fazei-o descer dessa cadeira!)
Meus veneráveis irmãos, não faço questão de calar-me, como quereis, mas não será melhor provar todas as coisas como manda o apóstolo, e crer só no que for bom? Lembrai-vos que temos um ditador ante o qual todos nós, mesmo Sua Santidade Pio IX, devemos curvar a cabeça: esse ditador, vós bem o sabeis, é a História!
Permiti que repita: folheando os sagrados escritos não encontrei o mais leve vestígio do papado nos tempos apostólicos! E, percorrendo os anais da igreja, nos quatro primeiros séculos, o mesmo me sucedeu!
Confessar-vos-ei que o que encontrei foi o seguinte: Que o grande Santo Agostinho, bispo de Hipona, honra e glória do cristianismo e secretário no concílio de Melive, nega a supremacia ao bispo de Roma. Que os bispos de África, no sexto concílio de Cartago, sob a presidência de Aurélio, bispo dessa cidade, admoestavam a Celestino, bispo de Roma, por supor-se superior aos demais bispos, enviando-lhes comissionados e introduzindo o orgulho na igreja. Portanto, o papado não é instituição divina.
Deveis saber, meus veneráveis irmãos, que os padres do concílio de Calcedônia colocaram os bispos da antiga e nova Roma na mesma categoria dos demais bispos.
Que aquele concílio de Cartago proibiu o título de “Príncipe dos Bispos”, por não haver soberania entre eles. E que São Gregório I escreveu estas palavras, que muito aproveitam à tese: – Quando um patriarca se intitula “Bispo Universal”, o título de patriarca sofre incontestavelmente descrédito. Quantas desgraças não devemos esperar, se entre os sacerdotes se suscitarem tais ambições? Esse “bispo” será o rei dos orgulhosos! – (Pelágio II, Cett.13).
Com tais autoridades e muitas outras que poderia citar-vos, julgo ter provado que os primeiros bispos de Roma não foram reconhecidos como bispos universais ou papas, nos primeiros séculos do cristianismo. E, para mais reforçar os meus argumentos, lembrarei aos meus veneráveis irmãos que foi Ósio, bispo de Córdova, quem presidiu ao primeiro concílio de Nicéia, redigindo os seus cânones; e que foi ainda esse bispo que, presidindo ao concílio de Dardica, excluiu o enviado de Júlio, bispo de Roma!
Mas, da direita me citaram estas palavras de Cristo – Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja. Sois, portanto, chamados para este terreno.
Julgais, veneráveis irmãos, que a rocha ou pedra sobre que a santa igreja católica, é Pedro; mas permiti que eu discorde desse vosso modo de pensar.
Diz São Cirilo, no seu quarto livro sobre a Trindade: “A rocha ou pedra de que nos fala Mateus, é a fé imutável dos apóstolos.” São Olegário, bispo de Poitiers, em seu segundo livro sobre a Trindade, repete: Que aquela pedra é a rocha da fé confessada pela boca de São Pedro. E, no seu sexto livro, mais luz nos fornece, dizendo: É sobre esta rocha da confissão da fé que a igreja está edificada. São Jerônimo, no sexto livro, sobre São Mateus, é de opinião que Deus fundou a sua igreja sobre a rocha ou pedra que deu o seu nome a Pedro.
Nas mesmas águas navega São Crisóstomo quando, em sua homília 56 a respeito de Mateus, escreve: – Sobre esta rocha edificarei a minha igreja: e esta rocha é a confissão de Pedro. E eu vos perguntarei, veneráveis irmãos, qual foi a confissão de Pedro?
Já que não me respondeis, eu vô-la darei: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus.”
Ambrósio, o santo arcebispo de Milão, São Basílio de Selêucia, e os padres do concílio da Calcedônia ensinam precisamente a mesma coisa. Entre os doutores da antigüidade cristã, Santo Agostinho ocupa um dos primeiros lugares, pela sua sabedoria e pela sua santidade. Escutai como ele se expressa sobre a primeira epístola de São João: Edificarei a minha igreja sobre esta rocha, significa claramente que é sobre a fé de Pedro. No seu tratado 124, sobre o mesmo São João, encontra-se esta significativa frase: Sobre esta rocha, que acabais de confessar, edificarei a minha igreja; e a rocha era o próprio Cristo, Filho de Deus.
Tanto esse grande e santo bispo não acreditava que a igreja fosse edificada sobre Pedro, que disse em seu sermão número 13: – Tu és Pedro, e sobre essa rocha ou pedra que me confessaste, que reconheceste, dizendo: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo, edificarei a minha igreja, sobre mim mesmo; pois sou o Filho do Deus vivo. Edificarei sobre mim mesmo, e não sobre ti. Haverá coisa mais clara e positiva?
Deveis saber que essa compreensão de Santo Agostinho, sobre tão importante ponto do evangelho, era a opinião corrente do mundo cristão naqueles tempos. Estou certo de que não me contestareis.
Assim é que, resumindo, vos direi:
1. Que Jesus deu aos outros apóstolos o mesmo poder que deu a Pedro.
2. Que os apóstolos nunca reconheceram em São Pedro a qualidade de vigário do Cristo e infalível doutor da igreja.
3. Que o mesmo Pedro nunca pensou ser papa, nem fez coisa alguma como papa.
4. Que os concílios dos quatro primeiros séculos nunca deram, nem reconheceram o poder e a jurisdição que os bispos de Roma queriam ter.
5. Que os Santos Padres, na famosa passagem: – Tu és Pedro, e sobre essa pedra (a confissão de Pedro) edificarei a minha igreja – nunca entenderam que a igreja estava edificada sobre Pedro (super petrum), e sim sobre a rocha (super petram), isto é; sobre a confissão da fé do Apóstolo!
Concluo, pois, com a história, a razão, a lógica, que o bom Jesus não deu supremacia alguma a Pedro, e que os bispos de Roma só se constituíram soberanos da igreja confiscando, um por um, todos os direitos de episcopado! (Vozes de todos os lados! Silêncio, insolente, silêncio! Silêncio!)
Não sou insolente! Não, mil vezes não! Contestai a história, se ousais fazê-lo; mas ficai certos de que não a destruireis!
Se avancei alguma inverdade, ensinai-me isso com a História, à qual vos prometo fazer a mais honrosa apologia. Mas compreendei que eu não disse tudo quanto quero e posso dizer. Ainda que a fogueira me aguardasse lá fora, eu não me calaria! Sede pacientes, como manda Jesus. Não ajunteis a cólera ao orgulho que vos domina!
Disse Monsenhor Dupanloup, nas suas célebres Observações sobre este concílio do Vaticano, e com razão, que, se declaramos infalível a Pio IX, necessariamente precisamos sustentar que infalíveis também foram os seus antecessores. Porém, veneráveis irmãos, com a História na mão vos provarei que alguns papas falharam.
Passo a provar-vos, meus veneráveis irmãos, com próprios livros existentes na biblioteca deste Vaticano, como é que falharam alguns dos papas que nos têm governado:
O papa Marcelino entrou no templo de Vesta e ofereceu incenso à deusa do paganismo. Foi, portanto, idólatra; ou, pior ainda; foi apóstata!
Libório consentiu na condenação de Atanásio; depois, passou-se para o arianismo.
Honório aderiu ao maniqueísmo.
Gregório I chamava Anticristo ao que se impunha como Bispo Universal; e, entretanto, Bonifácio III conseguiu obter do parricida imperador Focas este título em 607.
Pascoal II e Eugênio III autorizavam os duelos, condenados pelo Cristo; enquanto Júlio II e Pio IV os proibiram. Adriano II, em 872, declarou válido o casamento civil; entretanto, Pio VII, em 1823, condenou-o.
Xisto V publicou uma edição da Bíblia e, com uma, recomendou a sua leitura; e aquele Pio VII excomungou a edição. Clemente XIV aboliu a Companhia de Jesus, permitida por Paulo III; e o mesmo Pio VII a restabeleceu.
Porém, para que mais provas? Pois o nosso Santo Padre Pio IX não acaba de fazer a mesma coisa quando, na sua bula para os trabalhos deste concílio, dá como revogado tudo quanto se tenha feito em contrário ao que for determinado, ainda mesmo tratando-se de decisões dos seus antecessores? Até isso negareis?
Nunca eu acabaria, meus veneráveis irmãos, se me propusesse a apresentar-vos todas as contradições dos papas, em seus ensinamentos. Como então se poderá dar-lhes a infalibilidade? Não sabeis que, fazendo infalível Sua Santidade, que presente se acha e me ouve, tereis que negar a sua falibilidade e a dos seus antecessores?
E vos atrevereis a sustentar que o Espírito Santo vos revelou que a falibilidade dos papas data apenas deste ano de 1870?
Não vos enganeis a vós mesmos: se decretais o dogma da infalibilidade papal, vereis os protestantes, nossos rancorosos adversários, penetrarem por larga brecha com a bravura que lhes dá a História. E que tereis vós a opor-lhes? O silêncio, se não quiserdes desmoralizar-vos. (Gritos: É demais; basta!)
Não griteis, Monsenhores! Temer a História, é confessar-vos derrotados! Ainda que pudésseis fazer correr toda a água do Tibre sobre ela, não apagaríeis nem uma só das suas páginas! Deixai-me falar e serei breve.
Vergílio comprou o papado de Belisário, tenente do imperador Justiniano. Por isso, foi condenado no segundo concílio de Calcedônia, que estabeleceu este cânone: O bispo que se eleve por dinheiro será degradado. Sem respeito àquele cânone, Eugênio III, seis séculos depois, fez o mesmo que Vergílio, e foi repreendido por São Bernardo, que era a estrela brilhante do seu tempo.
Deveis conhecer a história do papa Formoso: Estêvão XI fez exumar o seu corpo, com as vestes pontificais; mandou cortar-lhes os dedos e o arrojou ao Tibre. Estêvão foi envenenado; e tanto Romano como João, seus sucessores, reabilitaram a memória de Formoso. Lede Plotino, lede Barônio, o Cardeal! É dele que me sirvo.
Barônio chega a dizer que as poderosas cortesãs vendiam, trocavam e até se apoderavam dos bispados; e, horrível é dizê-lo, faziam papas aos seus amantes!
Genebrardo sustenta que, durante 150 anos, os papas, em vez de apóstolos, foram apóstatas.
Deveis saber que o papa João XII foi eleito com a idade de dezoito anos tão-somente, e que o seu antecessor era filho do papa Sérgio com Marózzia. Que Alexandre XI era… nem me atrevo a dizer o que ele era de Lucrécia; e que João, o XXII, negou a imortalidade da alma, sendo deposto pelo concílio de Constança.
Já nem falo dos cismas que tanto têm desonrado a igreja. Volto, porém, a dizer-vos que, se decretais a infalibilidade do atual bispo de Roma, devereis decretar também a de todos os seus antecessores; mas, atrever-vos-eis a tanto? Sereis capazes de igualar a Deus todos os incestuosos, avaros, homicidas e simoníacos bispos de Roma? (Gritos: Descei da cadeira, descei já; tapemos a boca desse herege!)
Não griteis, meus veneráveis irmãos. Com gritos nunca me convencereis. A História protestará eternamente sobre o monstruoso dogma da infalibilidade papal; e, quando mesmo todos vós o aproveis, faltará um voto, e esse voto é o meu!
Mas, voltemos à doutrina dos apóstolos: Fora dela só há erros, trevas e falsas tradições. Tomemos a eles e aos profetas pelos nossos únicos mestres, sob a chefia de Jesus. Firmes e imóveis como a rocha, constantes e incorruptíveis nas inspiradas Escrituras, digamos ao mundo: assim como os sábios da Grécia foram vencidos por Paulo, assim a igreja romana será também vencida… (Gritos clamorosos: abaixo o protestante! Abaixo o calvinista! Abaixo o traidor da igreja!)
Os vossos gritos, monsenhores, não me atemorizam, e só vos comprometem. As minhas palavras têm calor, mas a minha cabeça está serena. Não sou de Lutero, nem de Calvino, nem de Paulo, e sim tão-somente do Cristo. (Novos gritos: anátema! anátema vos lançamos!)
Anátema! Anátema! para os que contrariam a doutrina de Jesus! Ficai certos de que os apóstolos, se aqui comparecessem, vos diriam a mesma coisa que acabo de declarar-vos.
Que lhes diríeis vós, se eles, que pregaram e confirmaram suas palavras com o seu sangue, lembrando-vos o que escreveram, vos mostrassem o quanto tendes deturpado o evangelho do amado Filho de Deus? Acaso lhes direis: preferimos a doutrina dos Loiolas à do Divino Mestre?
Não! Mil vezes não! A não ser que tenhais tapado os ouvidos, fechado os olhos e embotado a vossa inteligência, o que não creio. Oh! Se Deus quer castigar-nos, fazendo cair pesadamente a sua mão sobre nós, como fez ao Faraó, não precisa permitir que os soldados de Garibaldi nos expulsem daqui; basta deixar que façais Pio IX um Deus, como já fizestes uma deusa da Virgem Maria!
Evitai, sim, evitai, meus veneráveis irmãos, o terrível precipício a cuja borda estais colocados. Salvai a igreja no naufrágio que a ameaça, e busquemos todos, nas Sagradas Escrituras, a regra da fé que devemos crer e professar. Digne-se Deus assistir-me. Tenho concluído!
(Todos os padres se levantaram, muitos saíram da sala; porém alguns prelados italianos, americanos, alemães, franceses e ingleses rodearam o inspirado orador e, com fraternais apertos de mão, demonstraram concordar com o seu modo de pensar).
* * *
Como todos sabem o concílio, apesar deste e de outros protestos, aprovou o documento, mas ao menos os protestos ficaram para contar suas histórias e nos fazer pensar. Pense!
Thiago André Monteiro
t.a.monteiro@gmail.com
2007-07-05
PS: Se você realmente conseguiu chegar até aqui, por favor faça ao menos um comentário dizendo que leu até o fim do texto. Assim saberei quantos de fato concluíram a leitura e, dependendo do resultado, pensarei antes de publicar novamente um texto tão longo. Obrigado!
Texto do discurso extraído do livro: ALMEIDA Abraão de. Lições da História que não Podemos Esquecer. São Paulo: Vida, 1993.
MSex disse
Opa, Eu li ate o final! Mas preferiria um texto de seu próprio punho.
Ricardo disse
Bacana… gostei bastante. Vou mandar para a minha namorada, no esforço e na esperança de conseguir evitar que nosso filhote seja batizado na igreja católica.
Abraços….
David T. H. disse
Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz ás Igrejas.
Lara disse
Eu li até o fim! Bom saber que Deus inspira e usa até católicos para falar de Sua verdade. Pena que os homens são surdos!
Não deixe de postar textos por serem longos, não importa o nº de pessoas que lêem. Textos de qualidade têm que ser expostos. O próprio bispo discursou a tantos homens após MUITO estudo (imagino eu) e pensou não ter impactado ninguém vendo o resultado do concílio. Foi em vão seu discurso? Eu o li quase 140 anos depois… e entendi!
Cesar disse
Parabéns pelo site.
Li até o final, acho tudo muito complicado, está cada vez mais difícil entender as correntes religiosas.Todas lutam por poder. Acho mais importante é procurarmos ter uma vida baseada no amor ao próximo, que é muito difícil de conseguir.
Quanto aos textos longos acho interessante, assim os assuntos são mais dissecados.
Lucas disse
Levei quase 1 hora, mas é realmente excelente este texto! Isso é que é o poder de Deus sendo expresso pela vida de um homem!
Clóvis Escarabelin disse
Thiago, li até o fim. A história nos mostra que sempre houve alguém contestando alguns dogmas ou decisões das ditas religiões de Cristo. Como disse a Lara, não são surdos, se fazem de surdos para continuarem a enganar e não perderem o poder sobre o povo.
Abraços
10.07.2008
Thiago Mota disse
Li todo o texto e o achei muito bom. Tenho apenas uma dúvida: onde conseguiste tal discurso?
Abraço.
Thiago André Monteiro disse
Como escrito ao final do texto:
Texto do discurso extraído do livro: ALMEIDA, Abraão de. Lições da História que não Podemos Esquecer. São Paulo: Vida, 1993.